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É inegável que, ao longo das últimas décadas, as tecnologias da informação mudaram as relações sociais, interpessoais e até mesmo as relações de espaço-tempo. Segundo Pierre Lévy, em sua obra "O que é o virtual?", o fenômeno da virtualização não é nada tão revolucionário como dizem alguns, mas simplesmente algo natural que faz parte do curso normal da história do homem. Assim, a virtualização provocada pelas tecnologias da informação transformará a realidade tal como a conhecemos. Ela criará o que Lévy chama de espaços-tempos mutantes.
Tais transformações já se fazem notar em todos os aspectos da vida do homem contemporâneo e podem ser percebidas e podem ser percebidas, por exemplo, nos seguintes pontos:
  • letramento (processo de ensino/aprendizagem);
  • leitura e construção de sentidos;
  • educação superior (mais precisamente na comunicação científica, como artigos de periódicos, bibliotecas digitais, acesso a documentos remotos etc., e no ensino à distância);
  • direito autoral;
  • relacionamentos;
  • trabalho e
  • lazer.
Vamos tentar mostrar os impactos que as tecnologias da informação exercem em cada um desses pontos, começando pelas mudanças ocorridas nos processos de letramento/ensino-aprendizagem. Os recursos que a tecnologia dispôe torna esse processo tão distinto do que era décadas atrás, que para algumas pessoas é provável que dentro de pouco tempo, esse processo se dará sem o auxílio de lápis e papel. O fato é que as crianças estão tendo contato com a informática cada vez mais cedo. Isso as coloca numa situação completamente diversa da que foi vivida por crianças de duas décadas atrás. Elas provavelmente aprenderão a usar as tecnologias e se tornarão, também mais cedo, dependentes de sua aplicabilidade para resolver questões do dia-a-dia. Os professores, já na escola primária, poderão lançar mão de recursos áudio-visuais, interativos e mais dinâmicos, e por que não dizer mais interessantes, para trnsmitir conhecimentos aos seus pequenos alunos. Com o uso de interfaces atraentes e de softwares educativos, a educação tormou-se algo quase lúdico, entrando em uma nova geração.

Uma vez letradas, já podemos observar diferenças também no processo de leitura e construção de sentidos. Antes, só tínhamos contato com mídias cuja leitura é feita de maneira linear como livros, jornais e revistas. Você comaçava e ler e ia até o fim, acompanhando o raciocínio do autor, construindo o sentido de sua leitura através dos conhecimentos prévios somados aos do autor, agora compartilhados com você. Com o advento das tecnologias da informação e de recursos da internet como os hipervínculos (os links), a leitura deixou de ser linear e passiva, para se tornar interativa e dinâmica. O leitor agora pode decidir qual caminho tomar, que rumo dar a sua leitura. Podemos considerar que hoje somos co-autores de tudo o que aprendemos na internet, segundo Steven Johnson, em seu livro "Cultura da interface". Saltando de página em página, clicando de link em link, moldamos uma "colcha de retalhos" e montamos nosso próprio texto, que pode ter um começo e já partir para o fim, ou simplesmente não ter fim, parando na metade; podemos construir um caminho e um sentido para nossa leitura baseados em nossas próprias escolhas.

Na educação superior também se verificam diversas aplicabilidades das tecnologias da informação, que trouxeram uma enorme contribuição para a malhoria da comunicação científica. A instantaneidade das trocas de mensagens e informação possibilitou uma comunicação científica mais eficaz, troca de experiências e divulgação de resultados de pesquisa em maior tempo hábil, ao contrário do que acontecia antes, quando os resultados de pesquisas e descobertas científicas só conseguiam ser publicados quando já não eram mais tão atuais, devido às limitações dos mecanismos de impressão. As informações circulam hoje de forma mais rápida e barata, pois não se dá mais ênfase à posse dos documentos, se lhe for garantido o acesso. O Portal de Periódicos da Capes, por exemplo, constutui uma importante ferramenta de pesquisa no meio acadêmico, dando suporte à divulgaçãocientífica através de dezenas de bases de dados de editoras em todas as áreas do conhecimento, possibilitando o acesso a mais de 12 mil títulos de periódicos em texto completo, bases de resumos, patentes, teses, etc. Trata-se de um recurso tão rico e importante que o Ministério da Educação praticamente não viabiliza mais a compra/assinatura de periódicos impressos nas Instituições de Ensino Superior (IES) públicas, fazendo campanhas para a divulgação e uso do Portal. Assim como o Portal da Capes, existem outras bases de dados referenciais (quando trazem uma descrição do documento e/ou resumo, mas sem o texto integral) e de texto completo que são de fundamental importância para as pesquisas universitárias. Um bom exemplo disso são as BDTD's (Bibliotecas Digitais de Teses e Dissertações) disponibilizadas pelas IES para a divulgação dos resultados de pesquisas desenvolvidas em seus cursos de mestrado e doutorado. Essa iniciativa, apoiada pelo IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia), visa tornar público o que se pesquisa e os resultados dessas pesquisas nacionalmente, uma vez os autores desses trabalhos nem sempre os adaptam para serem publicados como livros ou artigos de periódico, dificultando o conhecimento de seu conteúdo para outros pesquisadores. Quando essa divulgação não acontece, o resultado da pesquisa fica restrito à instituição de defesa da dissertação ou tese. As tecnologias também contribuem para a otimização da troca de informações e acesso a conteúdos de interesse científico através do COMUT (Programa de Comutação Bibliográfica). A partir do CCN (Catálogo Coletivo Nacional de Publicações Seriadas), organizado pelo IBICT, qualquer pessoa tem acesso ao catálogo completo do acervo das instituições afiliadas ao programa, no que diz respeito a publicações periódicas. O COMUT se trata de um programa para fornecimento de cópias de documentos. Ele se mostra muito importante quando determinado documento não está acessível fisicamente ou de modo eletrônico em outras fontes como o Portal Capes, por exemplo. O pesquisador pode, então, através do COMUT, solicitar uma cópia impressa ou digitalizada desse material a uma biblioteca do Brasil ou mesmo do exterior, por um custo relativamente baixo. Não podemos deixar de mencionar o surgimento da Educação à Distância (EAD). Essa modalidade de ensino está cada vez mais presente nas IES e pode vir a revolucionara meneira como se faz e educação superior como a conhecemos. É um método que se adequa às necessidades e possibilidades de uma fatia da população que não teria acesso à educação superior nos moldes tradicionais. É também bastante interessante do ponto de vista econômico, pois reduz as despesas com infraestrutura e espaço físico para as instituições mantenedoras públicas e privadas.

Nossos relacionamentos, nosso trabalho e lazer também sofreram impactos causados pelas tecnologias da informação e comunicação. Uma realidade cada vez mais comum são as empresas virtuais ou aqielas que não contam com espaço físico definido, onde não há marcação de entrada e saída de funcionários, ou onde seus colaboradores têm condições e autonomia para realizar seu trabalho sem sair de casa, estando simplesmente conectado à internet. Várias empresas funcionam hoje dessa forma, principalmente as do ramo do comércio eletrônico. A internet possibilita que o marketing da empresa atinja milhares de clientes em potencial, aumentando as chances de negócios para os investidores. Quanto ao lazer, se estamos deixando de sair de casa para fazer compras, também estamos saindo menos para procurar diversão. Principalmente os mais jovens, passam muitas horas na frente do computador baixando músicas, jogos e filmes. Cada vez mais pessoas estão deixando de ir ao cinema ou à locadora de filmes por causa da facilidade de se conseguir filmes através de downloads na internet. Steven Johnson afirma no livro que já mencionamos que a internet, longe de ser um refúgio para introvertidos e anti-sociais que a ela recorrem para não sair de casa, ao contrário, a internet só tem aproximado as pessoas, até mesmo aquelas que não se conhecem. Já existem casais que se conheceram, namoraram, noivara e até casaram através da internet. Pessoas que moram em cidades, países ou mesmo continentes podem manter um relacionamento através da web. Conhecer uma pessoa está virando sinônimo de acessar seu perfil em um site de relacionamento.

Pode-se fazer quase qualquer coisa quando se está conectado à internet. Até mesmo coisas ilícitas como se apropriar do conteúdo informacional (artístico, científico ou literário) alheio e utilizá-lo como sendo seu ou utilizar e distribuir cópias de obras protegidas por direitos autorais sem reconhecer os direitos do autor. Para muitas pessoas oque está disponibilizado na internet é público e pode ser usado de qualquer maneira, mas não bem assim que a coisa deve se processar. Para proteger a propriedade intelectual existe a lei do direito autoral, com o objetivo de resguardar a propriedade intelectual e financeira dos autores em geral. Essas leis, no entanto, foram elaboradas numa época que não sofria com a volatilidade e instabilidade dos ambientes proporcionados pelas novas tecnologias da informação. Elas precisam, então, ser revistas, amplamente divulgadas e fiscalizadas para que se possa realmente proteger os autores e se atribuir a verdadeiro valor das obras a quem elas são de direito.

Referências

JOHNSON, Streven. Cultura da interface. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual? Coimbra: Quarteto, 2004.