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A catalogação ou representação descritiva é a parte da Biblioteconomia que lida com os formatos e padrões para descrição de documentos. Desde a década de 60, vem se preocupando também em viabilizar a possibilidade de se fazer intercâmbio de dados através de formatos padronizados compatíveis com os diversos tipos de sistemas automatizados de gerenciamento de documentos/acervos. Mas o que vem a ser exatamente a catalogação?

Segundo Eliane Serrão Alves Mey em Intrudução à catalogação, “a catalogação é o estudo, preparação e organização de mensagens codificadas, com base em itens existentes ou passíveis de inclusão em um ou em vários acervos, de forma a permitir a interseção entre as mensagens contidas nos itens e as mensagens internas dos usuários”.

É interessante notar que Mey afirma não se tratar apenas dos itens já adquiridos, pois a catalogação pode se referir a itens não pertencentes a um acervo específico, como é o caso das bibliografias. Também pode incluir um ou vários acervos porque, atualmente, muitos instrumentos de catalogação são coletivos ou compartilhados, como é o caso de catálogos coletivos, onde se tem acesso ao acervo de mais de uma instituição/biblioteca em uma mesma interface. Como exemplo, temos o catálogo do Sistema de Bibliotecas da UFC. O catálogo é um dos instrumentos mais antigos das bibliotecas. Eles são canais de comunicação estruturados que veiculam mensagens contidas nos itens e sobre os itens aos usuários. Através deles, deve ser possível localizar um determinado material a partir do conhecimento de seu autor, título, assunto, entre outras formas de consulta. Tais catálogos podem ser manuais ou automatizados. Conforme Strout, citada por Mey na obra já mencionada, a primeira ocorrência de algo parecido com um catálogo data de 2000 a.C. Naquela época, os suportes para o registro da informação utilizados eram o papiro e a argila, esta em forma de tabletes.

Um problema que surgiu com o desenvolvimento da catalogação foi a falta de padronização de seus registros, formatos e campos entre os paízes, regiões e até mesmo entre bibliotecas da mesma área geográfica. Cada passou a trabalhal para atender a necessidades locais, sem se preocupar com uma visão macro do controle das publicações e isso dificultava as relações e intercâmbio entre bibliotecas. Muitas tentativas foram feitas para sanar esse problema, cada país/região/biblioteca tentando mostrar que a sua maneira de proceder à representação descritiva dos documentos era melhor ou mais pertinente, até que instituições de projeção internacional como a Library of Congress (LC), a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA)passaram a trabalhar em prol de uma padronização dos formatos de registro bibliográfico. A década de 60 trouxe o desenvolvimento de recursos computacionais e assinalou o surgimento do projeto MARC (Machine Readable Cataloguing) “Catalogação Legível por Computador”. Anteriormente, neste blog, falamos do formato MARC aqui e aqui.

Damos tanta importÂncia ao MARc porque ele é o mais utilizado atualmente nos sistemas de gerenciamento de acervos/documentos/bibliotecas. Mesmo com os esforços empreendidos por essas instituições, à medida que outros paízes foram adotando o formato, começaram a surgirnovas discrepâncias. Jenniffer Rowley assinala na obra Biblioteca eletrônica:

"Foi por isso que o projeto MARC derivou-se em UNIMARC, para o intercâmbio internacional dos registros MARC e , hoje, cada vez mais paízes concordam em usar o formato USMARC, que talvez se torne o formatop padrão internacional”

Apesar de todas essas variações, o formado ficou conhecido somente como MARC. Esse é o formato adotado, por exemplo, pela Universidade Federal do Ceará, pela Escola de Aprendizes Marinheiros da Marinha do Brasil e pela Puntifícia Universidade Católica do Paraná, entre outras. Sendo um formato legível por computador, quando adotado por diferentes bibliotecas, o MARC padroniza e viabiliza o intercâmbio de registros e importação de dados, tornando mais prático o trabalho do catalogador, que não precisará começar todas as catalogações do zero, pois os dados importados podem ser editados para atender a particularidades das bibliotecas. Esse formato inclui mais de 60 elementos de dados, 25 deles sendo recuperáveis durante as buscas. É compatível com as Regras de Catalogação Anglo-Americanas (AACR2) e com a edição mais recente da Classificação Decimal de Dewey, segundo Rowlwy na obra já citada.

Nos registros MARC, os dados são inseridos em parágrafos ou campos que são formados por 3 algararismos situados na faixa de 000-945. As informações dos registros são agrupadas em blocos de acordo com o primeiro algarismo do parágrafo. O formato nos dá condições de registrar dados dos mais variados tipos de suporte e com uma grande riqueza de detalhes. Cabe ao catalogador identificar quais informações são importantes para serem registradas, pois há dados que não cabem a um determinado tipo de material e sim a outros. Ele também deverá decidir por uma catalogação mais detalhada ou mais superficial, considerando os objetivos da unidade de informação e o perfil de seus usuários. Por exemplo:

1XX = entradas principais

Todas as entradas principais do registros são feitas através do campo 1XX.


Esses campos são fixos e não podem ser modificados de registro para registro.

Entrada principal para Nome Pessoal - 100


Entrada principal para Entidade Coletiva - 110


Entrada principal para Evento = Campo 111


Entrada principal para Título Uniforme - 130

2XX = título e informações sobre o título

Alguns campos necessitam de subdivisões que comportem as várias partes dos dados que eles abrangem. É o caso, por exemplo, da área de publicação, distribuição e etc. (antiga imprenta) que é composta por 3 dados: local de publicação, editor e ano de publicação. Cada uma das 3 partes dessa informação, assume um subcampo específico dentro dos campos MARC. Assim, os subcampos não são meros enumeradores dos dados, mas são também fixos para cada tipo de dado. Se ainda não está claro, não se preocupe, veremos um exemplo adiante. O campo 2XX que é para a área do título, é dividido em subcampos porque ele tem dados que são separados por pontuação específica, senão vejamos:

Título : subtítulo (se houver) / indicação de responsabilidade

A pontuação separa a informação da área do título em três partes. Cada parte dessa informação é sempre vinculada a um subcampo específico para essa informação. Então, em um registro MARC, um determinado título figuraria dessa forma (não usarei a pontuação no exemplo de registro no MARc porque em muitos campos ele faz a pontuação automaticamente e porque a pontuação já foi mostrada no exemplo acima):

245 1a Título 2b subtítulo 3c indicação de responsabilidade

Veja que temos acima 3 subcampos chamados de a, b e c. O título da obra sempre será redigido no subcampo a. O subtítulo no subcampo b e a indicação de responsabilidade no subcampo c. Esses campos são fixos para esse tipo de dado. Os números 1, 2 e 3 são somente para indicar a ordem em que esses elementos aparecem. Dessa forma, se estivermos trabalhando com uma obra sem subtítulo, no formato MARC ele será lançada da seguinte forma:

245 1a Título 2c indicação de responsabilidade.

Veja que se não tivermos um subtítulo, o subcampo b, específico para subtítulos, não será utilizado, sendo a segunda ordem assumida pelo subcampo c.

Cabe agora esclarecer que a cada vez que mudamos de campo, as letrinhas que representam os subtítulos assumem uma função diferente. É o que ocorre com o campo 260, reservado para a informação da antiga imprenta. Veja o que acontece nesse campo, que também é formado por 3 partes ~separadas por pontuação específica:

Local de publicação : Editor , Ano.

No MARC, figura assim:

260 1a Local de publicação 2b Editor 3c Ano

Note que são utilizadas as mesmas letras que foram usadas no campo 245, porém, agora estamos no campo 260, o que indica que a representação dos subcampos pode ser reiniciada. Veja abaixo a relação dos campos existentes na seção 2XX:

Título Abreviado – 210


Título-Chave – 222


Título Uniforme/Original – 240


Título Traduzido pela Instituição Catalogadora – 242


Título Uniforme Coletivo – 243


TítTítulo Principal – 245


Formas Variantes do Título – 246


Título Anterior – 247


Edição – 250


Área de Dados Específicos de Música Impressa – 254


Dado Matemático Cartográfico – 255


Características do Arquivo de Computador – 256


País da Entidade Produtora para Filmes – 257


Informação sobre Material Filatélico – 258


Área da Publicação, Distribuição – 260


Data de Publicação Planejada – 263


Endereço – 270

3XX = Descrição física

Nesta área são registradas a dimensão, duração, quantidade de páginas, enfim, todas as informações do suporte do material. Os campos existentes nesta área são:

Descrição Física - 300


Tempo de Duração – 306


Horário, etc. – 307


Última Periodicidade - 310


Periodicidade Anterior – 321


Suporte Físico – 340


Dados de Referência Geoespacial – 342


Dados de Coordenada Plana – 343


Organização e Ordenação de Materiais – 351


Representação Gráfica Digital - 352


Controle de Classificação de Segurança – 355


Controle do Autor sobre a Disseminação – 357


Datas de Publicação e/ou Designação Seqüencial – 362


Preço – 365


Informação para Venda – 366

4XX = Séries

Título de série – 440


Título de série relacionado – 490

5XX = Notas

Veja como é extensa a área das notas. Ela nos dá uma grande quantidade de campos para que registremos as mais variadas formas de notas. Como falei anteriormente, nem tudo é digno de nota, ou seja, nem todos os detalhes de uma obra tem de estar, necessariamente, registradas na catalogação, mas caso seja preciso por alguma razão fazer a nota, não nos faltarão campos para isso!

Nota Geral – 500


Nota Iniciada com a Palavra “Com” – 501


Nota de Dissertação ou Tese – 502


Nota de Bibliografia, etc. – 504


Nota de Conteúdo – 505


Nota de Restrição de Acesso – 506


Nota de Escala para Material Gráfico – 507


Nota dos créditos de Criação/Produção – 508


Nota de Citação / Referências – 510


Nota do Participante ou do Executor – 511


Nota do Tipo de Relatório e Período de Cobertura – 513


Nota de Qualidade dos Dados – 514


Nota de Peculiaridade na Numeração – 515


Nota sobre o Tipo de Arquivo de Computador ou sobre os Dados – 516


Nota da Data/Hora e Local de um Acontecimento – 518


Nota de Resumo, etc – 520


Nota de Público Alvo – 521


Nota de Cobertura Geográfica – 522


Nota de Citação Preferida do Material Descrito - 524


Nota de Suplemento – 525


Nota do Programa de Estudo – 526


Nota de outros Formatos Disponíveis – 530


Nota de Reprodução – 533


Nota de Versão Original – 534


Nota de Localização dos Originais/Duplicatas -535


Nota de Informação sobre Financiamento – 536


Nota de Detalhes do Sistema – 538


Nota de Termos que Gerenciam o Uso e a Reprodução – 540


Nota da Fonte Imediata de Aquisição – 541


Nota de Materiais de Arquivo Associados – 544


Nota Biográfica ou Histórica – 545


Nota de Idioma – 546


Nota de Títulos Anteriores – 547


Nota de Publicação – 550


Nota de Atributo e Unidade – 552


Nota de Índice Cumulativo e Instrumento de Pesquisa – 555


Nota sobre documentação – 556


Nota de Origem - 561


Nota de Identificação de Cópia e Versão – 562


Informação sobre encadernação – 563


Nota sobre Características do Arquivo – 565


Nota de Metodologia – 567


Nota de Ligação e Entrada – 580


Nota de Publicações sobre o Material Descrito – 581


Nota de Processamento – 583


Nota de Soma e Freqüência De Uso – 584


Nota de Exposição – 585


Nota de Premiação – 586


Notas locais – 59X

6XX = Assunto

Um dos campos mais importantes da catalogação é a área dos assuntos, pois é através dele que serão feitas as buscas no sistema. Há um campo específico para cada tipo de cabeçalho, veja:

Assunto – Nome Pessoal – 600 (Quando o nome da pessoa é tratado como assunto e não como autor. Por exemplo, uma biografia de Machado de Assis escrita por outra pessoa. Nesse caso, Machado de Assis entraria aqui como assunto.)


Assunto – Entidade – 610


Assunto – Eventos – 611


Assunto - Título Uniforme – 630


Assunto Tópico – 650


Assunto - Nome Geográfico – 651


Termo não Pesquisado e não Controlado – 697

7XX = Entrada de ligação

Entrada Secundária – Nome Pessoal – 700


Entrada Secundária – Entidade – 710


Entrada Secundária – Evento – 711


Entrada Secundária - Nome não Controlado – 720


Entrada Secundária - Título Uniforme – 730


Entrada Secundária - Título Relacionado E Analítico não Controlado – 740


Entrada Secundária - Forma Hierárquica do Nome Geográfico – 752


Detalhes do Sistema para Arquivos de Computador – 753


Entrada Secundária - Identificação Taxonômica – 754


Entrada de Série Principal – 760


Entrada de Subsérie – 762


Entrada de Idioma Original – 765


Entrada de Tradução – 767


Entrada de Suplemento/Numero Especial – 770


Entrada de Registro Principal – 772


Entrada Analitica – 773


Entrada de Unidade Componente – 774


Entrada de outra Edição – 775


Entrada de Formato Físico Adicional – 776


Entrada de Publicado Com – 777


Entrada de Título Anterior – 780


Entrada de Título Posterior – 785


Entrada da Fonte do Dado – 786


Entrada de Relações não Específicas – 787

8XX = Entrada secundária

Entrada Secundária de Série – Nome Pessoal – 800


Entrada Secundária de Série – Entidade – 810


Entrada Secundária de Série – Eventos – 811


Entrada Secundária de Série – Título Uniforme – 830

Esses são os campos principais do formato MARC. Existem outros campos que oferecem um grande nível de detalhamento na descrições dos documentos e outros campos que são de preenchimento automático. Para mais informações sobre os campos do formato de registro MARC, clique aqui. Amanhã sai a segunda parte desta postagem.


Referências:

MARC21: formato bibliográfico. Disponível em: <http://www.dbd.puc-rio.br/MARC21/>. Acesso em: 25 fev. 2009.


MEY, Eliane Serrão Alves. Introdução à catalogação. Brasília, DF: Briquet de Lemos, 1995.


ROWLEY, Jennifer. A biblioteca eletrônica. Brasília: Briquet de Lemos, 2002.