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Fernando Modesto
Aos poucos um novo código de catalogação torna-se mais pronunciável na mente e na maneira do catalogador pensar a representação bibliográfica. A RDA – Recursos: Descrição e Acesso (Resource Description and Access) tende a ser amada ou odiada, pois foi projetada para substituir o Código de catalogação Anglo-Americano –  2ª edição (Anglo-American cataloguing rules, 2nd edition), conhecido pela sigla AACR2.
 
O sentimento que emerge com o novo código é algo quase parecido – no devido contexto – com o impacto causado pela ISBD – International Standard Bibliographic Description (Descrição Bibliográfica Internacional Normalizada), em meados dos anos de 1970, no Brasil (eu era ainda um inocente adolescente, mas mamães bibliotecárias comentaram alguns fatos nesse sentido), será que a catalogação acabou?
 
No momento, adentra-se ao período de transição (assimilação e aceitação) de novas regras. Certamente, a principal regra seja mexer com a zona de conforto de catalogadores.
 
Cresce a preocupação em compreender a RDA e entender a sua harmonização  com os modelos conceituais FRBR – Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (Functional Requirements for Bibliographic Records), e o FRAD – Requisitos Funcionais para Dados de Autoridade (Functional Requirements for Authority Data).
 
A RDA apesar de tratar da produção de registros que sejam armazenáveis, para pesquisa e recuperação em catálogos tradicionais, aplica-se à utilização no ambiente digital e com tecnologias de bases de dados existentes. O impacto da sua aplicação é previsível nos catalogadores e, também, nos fornecedores de sistemas para bibliotecas e de documentação.
 
Emprestando conceito da área da computação, a versão beta é a versão de um produto (geralmente software) que ainda se encontra em fase de desenvolvimento e testes.  A versão Beta indica que o programa apesar de não estar finalizado e poder apresentar problemas, pode ser utilizado.
 
No ambiente bibliotecário, a versão beta – AACR2 foi descontinuada e será substituída pela RDA, uma versão beta (ou será alfa, uma versão mais inacabada e geralmente lançada para uso em caráter experimental) a operar na ponta de um processo de tratamento bibliográfico em mudança.
 
Neste sentido, a arquitetura normativa, que regula a atividade de catalogação está se moldando às novas instruções orientadas ao ambiente digital, embora mantenha a abrangência do mundo impresso. É o caso do formato MARC 21 que passa por alterações para acomodar a RDA. Alterações profundas que já estimulam comentários sobre sua futura e breve extinção. Porém, desde agora é visível várias versões deste formato bibliográfico de intercâmbio.
 
Em janeiro de 2011, a Library of Congress publicou, no site oficial do MARC 21, informativo listando as alterações ocorridas para o uso com a RDA, e aprovadas até 2010 (atualizações de número 9, 10 e 11).
 
O processo de alterações desenvolve-se sob a responsabilidade do MARBI (Machine-Readable Bibliographic Information  Committee). Em texto anterior (Tagarelices tecarias sobre Tags MARC 21 atualizadas, Fevereiro/2010), tais questões foram abordadas. Agora que o novo código anuncia a sua chegada, o formato se reformata. Indicação de que impactos maiores ocorrerão significativamente em nossas práticas, nos softwares bibliográficos e nos registros.
 
Embora pareça algo distante, essa reformatação implicará na provável convivência de dois universos bibliográficos. Catálogos em MARC 21, base AACR2 e Catálogos MARC21, base RDA. Na teoria a relação pode ser pacífica, mas a catalogação na prática é outra. Catalogadores brasileiros estão conscientes sobre as mudanças e os seus possíveis impactos nos serviços técnicos? E o impacto na comunidade usuária da biblioteca?
 
No informativo de alteração MARC 21 (http://www.loc.gov/marc/RDAinMARC29.html), está arrolado até mesmo questões ainda em debate, sobre a pertinência da adoção ou não. Reproduzimos, para ilustração um destes itens em discussão:
 
§  Campo 883 – Tipo de entidade (NR – Não Repetitiva) – A RDA identifica os tipos de entidades do Grupo 1 do FRBR (obra, expressão, manifestação, item), relacionados com o título e a maioria das informações do registro. O campo 883 deverá ser usado para identificar as entidades FRBR do Grupo 1 que é representada pela maioria das informações no registro. Quanto à fonte, esta é especificada como "frbrgroup1", os valores determinados: "obra/work" (ou código w), "expressão/expression" (ou código e), "manifestação/manifestation" (ou código m), "item" (ou código i).
 
Para maior detalhamento e visualização de exemplos de aplicação do uso da etiqueta, acessar no endereço o link: http://www..loc.gov/marc/marbi/2011/2011-dp03.html.
 
Há diversos outros campos reconfigurados, bem como propostas de alterações para compatibilizar com o modelo FRBR, e consequentes novos procedimentos descritivos.
 
A mudança citada do MARC 21, as mudanças geradas pela RDA, e os impactos no universo do controle bibliográfico, são justificadas pela recente manifestação da Library of Congress – LC (publicada em 13 de maio de 2011), referente às transformações nos processos bibliográficos. Inicialmente endereçada à comunidade bibliotecária norte-americana, o texto tem sido divulgado por diversas fontes biblioteconômicas, sendo o seu conteúdo objeto de debate na próxima conferência anual da American Library Association, em junho de 2011.
 
A manifestação decorre da publicação recente da RDA e das primeiras análises dos testes de implementação realizados pelas bibliotecas nacionais dos Estados Unidos da América – EUA: Library of Congress (LC), National Library of Medicine (NLM), e National Agricultural Library (NAL).
 
Acontecimentos que reforçam sobre o momento de mudanças tecnológicas e ambientais; e que alertam a comunidade bibliotecária para repensar o futuro do controle bibliográfico, incluindo-se os formatos de comunicação e intercâmbio, em especial MARC21. A própria RDA já é pré-resultado das tentativas de responder aos questionamentos do ferramental de suporte ao controle bibliográfico.. É, também, uma das ações motivadoras no surgimento de outras indagações. Qualquer que seja as discussões sobre a implantação da RDA, é clara a necessidade de avaliar o cenário bibliográfico de forma mais ampla.
 
Cenário de mudanças afetado, também, pelas restrições orçamentárias que atingem bibliotecas e outros centros documentais. Apesar da restrição financeira, essas instituições necessitam investir em novos usos para os registros bibliográficos. Ganhar eficiência na criação e compartilhamento dos metadados de catalogação torna-se imperativo.
 
O manifesto da LC, está calcado no trabalho de Deanna Marcum (bibliotecária-associada da Library of Congress), que coordena esse esforço de análise do futuro dos processos catalográficos; de identificar componentes do processo de suporte aos usuários; e o planejamento da evolução dos procedimentos atuais para um futuro próximo. O estudo não está restrito à Biblioteca do Congresso, pretende-se colaborativo às bibliotecas em geral.
 
É conhecido o investimento realizado pela LC, no desenvolvimento de normas e padrões de codificação bibliográfica (MARC 21, AACR2, RDA, etc..). As restrições orçamentárias que afetam as bibliotecas participantes do programa de testes da RDA, não alteram o entendimento sobre a necessidade de substituir o MARC 21 por um novo e emergente padrão de conteúdo que traga melhores benefícios.
 
Sendo o MARC 21 o padrão adotado por ampla maioria das bibliotecas brasileiras, que impacto poderá ter no cenário nacional? Mesmos as bibliotecas nacionais que utilizam formato UNISIST/UNESCO não estão imunes. Os desenvolvedores de softwares no Brasil serão impactados da mesma forma? Qual será o custo para as bibliotecas?
 
As ações da LC buscam analisar como os recursos para criação e troca de metadados especializados (registros MARC) estão sendo usados, e como podem ser direcionados pela comunidade bibliotecária. Neste sentido, as propostas abordadas destacam:
 
·         Determinar quais os aspectos a ser restringidos e quais contidos em um futuro formato de intercâmbio. Considerando-se o MARC21 (contém milhares de milhões de registros codificados), e outras iniciativas de formatos.
 
·         Analisar a experiência com a Web Semântica e os prováveis benefícios ao processo bibliográfico, e como os modelos atuais precisam ser aperfeiçoados para melhor aproveitamento desses prováveis benefícios.
 
·         Promover a máxima reutilização de registros da biblioteca no ambiente de busca da Web, de maneira que os usuários finais possam estar expostos à metadados de melhor qualidade e fazer uso de forma inovadora.
 
·         Possibilitar aos usuários condições de navegação entre as relações de entidades – como: pessoas, conceito, objeto, lugar, obras – para pesquisarem com maior precisão em catálogos de biblioteca e na internet. Explorar a utilização do modelo FRBR na construção da navegação por relacionamentos, em estrutura codificada por bibliotecários ou tornado compreensível pela Web Semântica.
 
·         Prospectar outras abordagens na exibição de metadados para além dos sistemas atuais baseados em codificação MARC.
 
O processo que se desencadeia no interior da LC pretende envolver os colaboradores e usuários, especialistas em padronização e desenvolvedores de sistemas que fazem uso dos metadados bibliográficos produzidos pela biblioteca. Também uma lista de discussão eletrônica será criada para coleta de contribuições ao esforço de reformular o cenário bibliográfico.
 
Apesar de certa ênfase na questão da mudança, é fato que mudar por mudar não é suficiente para justificar as propostas em discussão ou sua aceitação. Apesar de a RDA ser  estopim na agitação das coisas no ambiente catalográfico, em semelhança ao seu antecessor, não é um padrão aberto. Carece de maior clareza sobre aprimoramento do catálogo bibliográfico (enriquecimento do conteúdo), orientação para indexação, e interoperabilidade com outros padrões. Muitos aspectos ficam para decisão local e de desenvolvedores de sistemas. Observações que emergem nas listas de discussões da área.
 
Um questionamento recorrente é: "será que vai atender melhor o usuário?". Fica também uma observação, "o usuário norte-americano não é o mesmo que o usuário brasileiro", sem demérito para um ou outro.
 
Ao finalizar, uma esperança sobre o tema no Brasil. A bibliografia segue aumentando. Há sites dedicados ao tema: "Catalogação". Falta iniciar a crítica ao uso e os testes de viabilidade à realidade do país chamado Brasil, que contém vários brasis. Os testes realizados nos EUA ficaram restritos às bibliotecas nacionais especializadas, falta outros modelos de bibliotecas, mais populares em termos de público atendido.
 
Indicação de leitura e outros comentários:
 
Transforming our Bibliographic Framework: A Statement from the Library of Congress. Bibliographic Framework Transition Initiative: News, May 13, 2011. Disponível em: http://www.loc.gov/marc/transition/news/framework-051311.html. Acesso em: 25/04/2011.
 
Obra de leitura obrigatória para estudantes de biblioteconomia e bibliotecários:
 
OLIVER, Chris. Introdução à RDA: um guia básico. Tradução de Antonio Agenor Briquet de Lemos. Brasília, DF: Briquet de Lemos/Livros, 2011.
Informações para obtenção da obra: www.briquetdelemos.com.br
 
Outra publicação (recém-lançada), significativa para a área técnica:
 
MESSINA-RAMOS, Maria Angélica Ferraz. Manual para entrada de dados bibliográficos  em formato MARC 21: ênfase em obras raras e especiais. Colaboração Marlene de Fátima Vieira Lopes; revisão técnica Maria Helena Santos. Belo Horizonte : Editora UFMG, 2011.
Informações para obtenção da publicação: www.editoraufmg.com.br
 
 
Blogs recentes sobre o universo catalográfico:
 
Processo Técnico BICE/UCS. Desenvolvido pela equipe de bibliotecários do Sistema de Bibliotecas da Universidade de Caxias do Sul:
http://processotecnicoucs.wordpress.com

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Para promover e catalogar as culturas do Brasil. Blog sobre cultura e biblioteca, em especial com enfoque na catalogação, desenvolvido por alunos de biblioteconomia, sob a orientação de professores da Fundação Escola de Sociologia e Política: